Nossas Pérolas & Nossas Griots

 

"Os brasileiros precisam conhecer a história dos negros"
Petronilha Beatriz

Responsável pelo parecer do Conselho Nacional de Educação que instituiu, há alguns anos, a obrigatoridade do ensino da história da África e de seus descendentes nas escolas brasileiras, a gaúcha Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva é titular de Ensino-aprendizagem-Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e coordenadora do Grupo Gestor do Programa de Ações Afirmativas da mesma universidade. Com vasto currículo acadêmico, a professora possui, ainda, graduação em Português e Francês (1964), mestrado em Educação (1979) e doutorado em Ciências Humanas-Educação (1987), pela Universidade Federal do Rio grande do Sul. No exterior, cursou especialização em Planejamento e Administração no Instituto Internacional de Planejamento da UNESCO, em Paris (1977), e fez estágio de Pós-Doutorado em Teoria da Educação, na University of South Africa, em Pretória, África do Sul (1996). Com toda essa bagagem, tornou-se uma das maiores especialistas em Educação Étnico Racial no Brasil e a primeira negra a pertencer ao Conselho Nacional de Educação. Com exclusividade à RAÇA BRASIL, Petronilha fala sobre os rumos da educação e da Lei 10.639, além do polêmico caso do livro Caçadas de Pedrinho, do escritor Monteiro Lobato. “Ele é um grande literato, mas era racista”, afirma,

Como nasceu a ideia de criar uma lei para ensinar nas escolas a história da Àfrica e seus descendentes?

Em 2002, fui conduzida ao Conselho Nacional de Educação por indicação do Movimento Negro. Aí, começaram a chegar algumas denúncias, como a acorrida num desfile de 7 de setembro, no Tocantins. Não me lembro o nome da cidade, mas não foi na capital. No evento desfilaram crianças de colégio. Um grupo desfilou andando no asfalto com os pés descalços como escravizados e uma menina branca, loura, carregada numa cadeirinha por dois meninos negros. Diziam que estavam contando a história dos transportes. Essa situação toda foi fotografada e fizeram uma exposição na prefeitura da cidade. O movimento negro local pediu para que fosse retirada. Como não o fizeram, o caso foi parar no Conselho.

Assim como a denúncia do livro de Monteiro Lobato?

Sim, mas chegavam casos dos mais variados. Lembro- me, por exemplo, do pai de um menino negro. A criança não queria ir à escola e o pai, querendo saber o motivo, descobriu que era por causa de um livro com uma representação negativa em imagens. Talvez as pessoas tivessem uma intenção, digamos, boa, só para dar um exemplo. Esse segundo caso chegou por meio do MEC.

O primeiro caso, do Tocantins, encaminhamos para a Secretaria do MEC de Educação Fundamental que, por sua vez, tomou providência. Isso para lhe dar um exemplo do tipo de demanda que chegava ao Conselho. Ao mesmo tempo, a gente sabia que havia uma expectativa, claro, do Movimento Negro. Eu propus que houvesse alguma manifestação do Conselho. Convidei militantes que estavam em Brasília para, quando estivéssemos em reunião do Conselho, participássemos paralelamente da reunião. Assim, vários militantes passaram a companhar as reuniões do Conselho. Surgia o embrião que resultaria na Lei 10.639.

Mas antes disso já havia professores e ativistas negros que trabalhavam a questão racial dentro das escolas em todo o Brasil.

Sim, havia um entendimento no Movimento Negro e professores que já trabalhavam com história e cultura afro-brasileira e africana, mas tinha que haver uma mudança nas relações entre negros e não negros, e isso exigiria a elaboração de diretrizes. Então, reunimos um grupo por, praticamente, dois anos.

Nessa comissão é que nos organizamos, de uma maneira informal, sem a oficialização do Conselho, e fizemos também uma programação, porque haveria mudança de governo. No mês de dezembro, apresentamos para a comissão que cuidava da transição uma proposta do que seria importante nos diferentes níveis de ensino, relativamente à população negra para um governo bom. Voltando às diretrizes, fizemos uma consulta, um questionário, que foi distribuído via internet para pessoas do movimento negro, professores, secretarias de educação, estudantes… Muitas discussões foram feitas.

Ou seja: o tema foi amplamente discutido com a sociedade. Houve resistência?

E muita. Houve quem ponderasse, na época, que isso poderia acirrar o racismo, e até hoje há quem ainda diga isso. Quando a lei foi aprovada, houve manifestação de diferentes intelectuais contrários a ela.

“Digo que algumas idéias e sentimentos pré-concebidos contra a população negra influi, sim, no fato de as pessoas, por exemplo, acharem que é desnecessário ensinar e educar as relaçõe raciais na escola, porque acham que está tudo bem"

Entre os professores, também existe resistência em acatar a lei?

Não tenha dúvida, pois as leis de diretrizes exigem uma mudança de mentalidade do professor, uma mudança de mentalidade da relação do professor, inclusive com pessoas negras e da imagem que o professor tem das pessoas negras. Eu pergunto em cursos e palestras e peço para as pessoas pensarem: O que eu penso das pessoas negras? De onde vem o que eu penso sobre elas? Aprendi onde? Aprendi quando criança, brincando, ou aprendi estudando? De onde é que vem, qual é a raiz, a origem? Pergunto para as pessoas se darem conta de que elas, às vezes, se comportam sem ter muita clareza de onde vêm a origem e a raiz do seu comportamento.

A senhora diria que a resistência de alguns professores em não querer aplicar a lei se deve também a certo racismo?

Digo que algumas ideias e sentimentos pré-concebidos contra a população negra influi, sim, no fato de as pessoas, por exemplo, acharem que é desnecessário ensinar e educar as relações raciais na escola, porque acham que está tudo bem. De um lado é a necessidade de troca de mentalidade, de outro, um fato das normas legais que são adotadas. Os professores não têm ainda o hábito de lerem e interpretarem as leis de diretrizes, então, fica a cargo de uma coordenadora, de uma supervisora, que diz o que tem que ser feito. Fica nas mãos de um e de outro que pode até, por preconceito, fazer vistas grossas na aplicação da lei.

Em relação à lei, a maior crítica que se faz é quanto ao despreparo do professor para ensinar a matéria na sala de aula.

Os brasileiros precisam conhecer a história dos negros. O que acontece é que a lei de diretrizes de bases é, até certo ponto, explícita, mas tem muitos detalhes, trata de muitos níveis de ensino, e um artigo não dá toda a explicitação. Qual é o papel do Conselho Institucional de Educação diante disso? Interpretar as determinações legais, criar e oferecer elementos para que sejam implantadas. Quero dizer o seguinte: o termo, o artigo da lei é lacônico, mas as diretrizes curriculares que regulamentam para que se possa implantar são detalhadas. Uma das coisas que ela diz é que é preciso criar condições para que os professores implantem entre eles, recebendo informações, fazendo cursos, criando materiais. Mas isso cabe a quem? Cabe à Secretaria de Educação e aos próprios estabelecimentos de ensino, cabe às mantenedoras.

Existe alguma punição para a escola, professor ou secretaria que não esteja cumprindo a lei?

Por iniciativa do próprio Ministério Público, no Rio de Janeiro tem um grupo de advogados que estimulou essa cobrança. A minha universidade, por exemplo, já recebeu. O Ministério Público foi perguntando: Existe uma lei. O que vocês fizeram? Como universidade, tem cumprido o que está determinado? Recentemente, o Ministério Público da região de São Carlos chamou as secretarias municipais de educação e perguntou: O que vocês têm feito? Vocês têm um setor da secretaria ou uma seção para cuidar disso? Se não tem, tem que ter! Chamou a nossa universidade também para dizer: Eles precisam criar condições e vocês têm que ajudar a criar essas condições. O Ministério Público é que tem se encarregado e faz esse controle.

E qual tem sido a resposta?

Para você ter uma ideia, no Rio Grande do Sul, o Ministério Público fez uma cartilha para que não chegassem com a grande e maior desculpa que é: Não temos material!

Logo que foi promulgada a lei e que saíram as diretrizes curriculares, a gente até poderia dizer que os materiais eram muito escassos. Não é que eles fossem de fato inexistentes, mas acontecia que grande parte deles era produzida pelo movimento negro, por pessoas, individualmente. O número das publicações para divulgação era muito restrito, era apenas para aquele universo. Existia tanto que as professoras ligadas ao Movimento Negro ou, sabendo da existência dele, e que se deram ao trabalho de ler as diretrizes que indicavam que o Movimento Negro deveria ser consultado, fizeram isso e tinham material. Mas, hoje, não dá para dizer que não há material. A Secretaria de Educação e o MEC publicaram muito coisa e compraram também.

Então, quem não aplica a lei atualmente, é mais por falta de vontade?

Eu acho que sim. Diria que é má vontade, na medida em que o projeto de sociedade inclui uma sociedade elitista, onde há discriminação. As pessoas vão ter que revisar as suas posições em relação às outras. Esse é o grande Brasil. Não é só saber algumas coisas. Então, o que acontece, as escolas estão fazendo ainda atividades pontuais.

O que a senhora achou da polêmica com o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato?

O que está em questão no parecer do Conselho, com muita clareza, não é a qualidade literária da obra, que não está dizendo que ele é um mau autor. Está dizendo que ele escreveu, em uma época, coisas que desqualificam a população negra, ele teve atitudes racistas e que isso vai reforçar essas atitudes nas crianças que lerem e vão fazer com que as crianças negras se sintam discriminadas, sofram e tenham vergonha de serem negras. É isso que está dizendo o parecer. É importante que o próprio livro chame a atenção do professor para este fato e que se faça um encaminhamento para saber como os professores lidam com isso. Há muito tempo não leio Monteiro Lobato e me dei conta do por quê chamam tanto as crianças negras de macacas. “Ah! O Monteiro Lobato está chamando!”A Emília é uma boneca, é o personagem preferido do … Seja uma boneca, uma árvore, um rato, não importa, esse personagem traz essa mensagem. Nas escolas chamam as crianças negras de macacas, mas o Monteiro Lobato está ensinando.

“A CRIANÇA NEGRA TEM QUE LER SABENDO QUE ESSA PESSOA ERA UMA PESSOA RACISTA, QUE NÃO GOSTAVA DE NEGROS. SE GOSTASSE, NÃO ESCREVERIA NEM SE REFERIRIA A ELES DESSA FORMA”

Qual a sua opinião sobre Monteiro Lobato?

Ele é um grande literato, mas era racista, tinha uma posição dentro de sua época e isso tem que ser pontuado. Eu vou fazer a crítica de uma obra literária? Vou sim, se essa obra faz mal para alguém. A criança negra tem que ler sabendo que essa pessoa era uma pessoa racista, que não gostava de negros. Se gostasse, não escreveria nem se referiria a eles dessa forma. E as crianças têm de ser reforçadas para não sofrerem. Elas têm que conhecer Monteiro Lobato e as crianças brancas têm que saber que ele era racista e que isso faz sofrer, desqualifica as pessoas e a gente quer uma sociedade democrática.

Como uma família deve agir se perceber que a escola de seu filho não obedece à lei?

Se o pai e a mãe perceberem que na escola de seus filhos estão contempladas somente imagens e histórias de crianças brancas, devem pegar o parecer e ir até lá dizer: “Olha, está escrito, foi o Conselho Nacional de Educação, quero ver quando vão obedecer a essa lei”. Tenho certeza que o dia em que os pais entrarem na escola com os pareceres, cobrando da escola, as coisas vão mudar.

Fonte: REVISTA RAÇA BRASIL
Textos e fotos: Maurício Pestana

 

Lelia Gonzalez - Uma mulher de luta*
Mulheres negras: do umbigo para o mundo no seu trabalho de garimpagem, encontrou Lélia Gonzalez numa entrevista realizada em Salvador, por Jônatas Conceição e editada por Edson Cardoso para o Jornal do MNU, no. 19, maio/junho/julho de 1991.I Militante, pesquisadora, professora, antropóloga, Lélia Gonzalez jamais poderá ser esquecida por nós, mulheres negras, que temos orientado nossa práxis política e social para promover a emancipação da população afrodescendente. Sua memória tem de ser lembrada sempre que vivermos momentos de grande importância, como o atual, onde estamos envolvidas com o processo preparatório para a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação, Xenofobia e outras formas de Intolerância. Já são quase dez anos, ela não está mais entre nós, mas veja que lucidez tinha nossa companheira. Espero que gostem, reflitam e discutam as idéias colocadas aqui!
* Esta entrevista foi reeditada por Fatima Barbosa para o site www.mulheresnegras.org
** Crédito da fotografia da Lélia: Jornal do Brasil
CLIQUE AQUI PARA VER A ENTREVISTA COMPLETA


Neusa das Dores Pereira.
http://www.mulheresnegras.org/neuza.html



s Sueli Carneiro uma guerreira contra o racismo
Caros Amigos, ed.35 - A entrevista explosiva é com Sueli Carneiro, que declarou guerra ao racismo e ao que chama de “mito da democracia racial” no Brasil. http://www.uol.com.br/carosamigos/edicao/ed35/entrevista.htm


Zezé Mota
- http://www.cidan.org.br
Nascida em Campos, cidade do norte fluminense, logo aos dois anos de idade Zezé veio para o Rio de Janeiro, onde passou a estudar em um colégio interno. Um dia, levada pelas mãos de Maria Clara Machado, foi como bolsista, fazer um curso de teatro no Tablado, e começou a se interessar pela arte de representar. Em 1967 já estava profissionalizada.
Como atriz, Zezé Motta tem carreira fulgurante. Sua estréia no teatro se deu em 1967, com "Roda Viva", sob direção de José Celso Martinez Corrêa e, desde então, participou do elenco de importantes peças como: "Fígaro, Fígaro", "Arena conta Zumbi", "A Vida Escrachada de Joana Martine" e "Baby Stompanato", em 1969; "Orfeu Negro", em 1972, e "Godspell", em 1974, entre outras. Com passagens pelo cinema, em "A Rainha Diaba". "Vai Trabalhar Vagabundo", e a "Força de Xangô", Zezé fez teste para "Xica da Silva", e foi com este papel que recebeu todos os prêmios como atriz. A seguir, vieram "Tudo Bem", "Águia na Cabeça", "Quilombo", "Jubiabá" e "Anjos da Noite". Em 1989, Zezé Motta esteve nas telas em 6 filmes: "Sonhos de Menina Moça", "Natal da Portela", "Prisioneiro do Rio", "El Mestiço", "Dias Melhores Virão" , "Tieta" e "O Testamento do Sr. Nepumoceno". No ano seguinte, participou de "Orfeu Negro", de Cacá Diegues.
Recentemente, Zezé participou do filme "Xuxa e os Duendes 2 – No Caminho das Fadas" e protagonizou um curta metragem sobre Carolina Maria de Jesus, autora do livro "Quarto de Despejo"
Em televisão atuou nas novelas "Corpo a Corpo", "Pacto de Sangue", "A Próxima Vítima" e "Corpo Dourado" da Rede Globo e, "Kananga do Japão" e "Xica da Silva" da Rede Manchete. Participou também das mini-séries "Mãe de Santo", pela Manchete, "Memorial de Maria Moura" e "Chiquinha Gonzaga" pela TV Globo. Recentemente fez a personagem Nadir em "O Beijo do Vampiro", novela das 19:00 horas na TV Globo.
A carreira de cantora começou em 1971, em São Paulo, quando se apresentava como crooner nas casas noturnas Balacobaco e Telecoteco.
Desde então, por sua voz de inegáveis recursos e seu timbre especial, aliados a presença carismática, fizeram com que ela personificasse a negritude com sua sensualidade assumida, combinando o misticismo dos cultos afros com uma ousadia ingênua.
Os convites para cantar começaram a aparecer e Guilherme Araújo, na época empresário das maiores estrelas da nossa música, tomou para si a chance do lançamento, e com um show memorável no MAM/RJ, a cantora ZEZÉ MOTTA entrava de vez na constelação de estrelas de MPB.
Em 1978, fez seu primeiro disco: "ZEZÉ MOTTA". Logo vieram "Negritude", "Dengo" e "Frágil Força". Com Djalma Corrêa, Jorge Degas e Paulo Moura, Lançou "Quarteto Negro" em 1988. Gravou "Chave dos Segredos" em 1995. Realizou apresentações no exterior, convidada pelo Itamarati, representando o Brasil em Hannover (Alemanha), no Carnegie Hall (New York), além de França, Venezuela, México, Chile, Argentina, Angola e Portugal. No show INVISÍVEIS CORES, Zezé fez uma homenagem ao amigo LUÍS MELODIA, interpretando músicas de sua autoria. Já em DIVINA SAUDADE, Zezé homenageia a divina Elizeth Cardoso.
É Presidenta do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro - CIDAN